Século XVII: Yerba Mate e Bandeiras

 

 

No final dos anos 1500, um estimulante fermentado conhecido pelos falantes do Guarani como ka'a ou ka'a miri, feito a partir das folhas de uma árvore de azevinho nativa, ilex paraguariensis, e que havia se tornado uma nova mercadoria significativa. Os espanhóis batizaram a bebida de Yerba Mate, usando a mão de obra Guarani para extrair a "mercadoria" da floresta. Do Paraguai, os espanhóis a exportaram para o Chile e para as minas de prata de Potosí, nos Andes, onde foi vendida a mineiros indígenas. Dessa maneira, os trabalhadores Guarani se ligaram a uma cadeia de mercadorias que se estendia da Mata Atlântica, passando pelas minas do Peru e pelas margens de Gênova. A resistência Guarani e as estratégias de negociação retardaram a expansão da fronteira da mercadoria erva-mate na esfera espanhola da floresta. Ao longo dos séculos XVII e XVIII, esses conflitos contribuíram para que a erva-mate não alcançasse o mesmo renome no cenário mundial como foi o caso de outros estimulantes com cafeína, como chá e café. O mapa abaixo mostra como ações autônomas Guarani na província do rio Guaíra afetaram a extração espanhola de erva-mate no início do século XVII.

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No século XVII, o sul da Mata Atlântica se tornou o palco de um confronto cataclísmico entre missionários jesuítas, caçadores e mercadores de escravos portugueses e forças indígenas autônomas. Os povos falantes das línguas Guarani e Jê viram-se cercados por colonos espanhóis e missionários do Paraguai e bandeiras portuguesas de São Paulo. Entre 1520 e 1680 colonos portugueses sequestraram mais de cem mil guaranis e pessoas de outros povos indígenas na região. Tanto as forças indígenas autônomas quanto os exércitos Guarani das missões jesuítas impuseram um limite às bandeiras, mais notoriamente na batalha de Mbororé em 1641, onde tropas missionárias derrotaram um exército paulista-tupi.

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A maioria dos Guarani capturados foi forçada a cultivar trigo e outros produtos alimentícios no planalto de São Paulo, para que, com essas safras, fossem então se abastecendo os mercados de soldados, administradores e escravos nas demais colônias brasileiras. Este trabalho escravo indígena, portanto, desempenhou um papel importante no abastecimento dos exércitos do Atlântico sul de Portugal enquanto o reino recuperava sua independência da Espanha e lutava contra a tentativa de conquista holandesa de suas colônias brasileiras e africanas.

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