Nhandecy eté:

Walking across the womb of the Atlantic Rainforest
 

 

The Earth is a living body,
She is Nhandecy eté, our mother.
When we walk on the earth
We are treading on a woman's body.

Sobre Nhandecy Eté
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Arandu Nhandecy eté – o conhecimento das mulheres

 

Arandu são os saberes repassados através das narrativas orais, sempre citados por nossos avós. Como a história de nossos primeiros pais, Nhanderu ete (pai) e de Nhandecy eté (mãe).

 

A minha avó explicava aos meninos e meninas que essas histórias devem ser contadas para não cometermos o mesmo equívoco de Nhanderu eté e de Nhandecy eté. Ela sempre dizia que os ensinamentos estão na própria língua guarani.

 

Portanto, os homens precisam ouvir e compreender para colocar na consciência que as mulheres sempre fizeram parte deles, porém são corpos diferentes. Eles devem sempre procurar saber a complexidade do corpo de uma mulher porque respeitar uma mulher significa respeitar seus princípios, pois a mulher é a base do ser humano.

 

Para explicar a nossa forma de pensar, utilizo a metáfora da árvore e a poética da língua guarani. Entre o meu povo, mãe, cy, pode ser compreendida como uma árvore, pilar do ser humano. Já os filhos, xe memby - seriam os galhos, pois memby, falando na língua guarani e traduzindo, é uma coisa que nasce do mesmo corpo e sempre fica ali grudada. As espigas de milho, por exemplo, são awati memby porque surgem do tronco, “pé” do milho. Galho, em guarani, é memby porque nasce do mesmo tronco. Assim, quando me refiro aos meus filhas/filhos sei que eles são os meus galhos, minhas espigas, pois estarão sempre grudadas/grudados em mim, cy re (na mãe).

 

A árvore é como nós mulheres entendemos o corpo de uma mãe na língua guarani nhandewa. A estrutura do nosso corpo está ligada diretamente aos nossos filhas/filhos, mantendo uma relação próxima com eles, a exemplo da árvore e seus galhos, diferentemente dos homens que têm formas distintas de nomear, entender e se relacionar com as filhas e os filhos. Quando um Guarani se refere ao filho diz xe ra’y, meu pedaço. Já as meninas são chamadas de xe radjy, minha carne, meu nervo. Segundo xe djaryi, para o pai as crianças têm ligação mais próxima com o umbigo, como se fosse uma corda que liga a criança ao pai. Por isso, quando o homem tem filho recém-nascido deve seguir várias regras, resguardar até kuera, “sarar” o umbigo - isso pode levar três meses.

 

No período de resguardo, caso o pai precise caçar, ele tem que ‘fechar’ as encruzilhadas com cinzas e ele deve ir e voltar pelo mesmo caminho. Isso porque o bebê está ligado ao pai pelo umbigo - é como se o filho o seguisse. O pai não pode utilizar facas, facões, “coisas afiadas”, não deve comer carnes vermelhas, etc. Ele deve observar essas interdições e evitar ser capturado pelos mba’e dja - ‘donos das coisas’ - ou mba’e vai - coisas ruins -, bichos, seres outros, sentimentos ruins, pois nesse período “o pai tem cheiro”, como dizem os antigos, correndo perigo de ser atacado por onças, da mesma forma que Nhandecy eté foi morta no mito de nossa origem.

 

Nhandecy eté

 

É “mito” para os juruá, mas para nós Guarani não é mito.

A história de Nhandecy é responsável pela estruturação e construção do teko Guarani e do modo de vida uarani. Falo isso porque estamos diante de desafios, quando saio da aldeia não me vejo em lugar algum. O nosso conhecimento guarani, nós não o praticamos fora da nossa aldeia, às vezes até na aldeia não conseguimos mantê-lo por falta de acesso a plantas, rios, mata boa e por falta de demarcação das terras ou pelo fato da terra já ser devastada. Na aldeia, todavia, sempre seguimos as regras propostas por Nhandecy, a sua história é sempre lembrada, apesar das dificuldades de manter nosso sagrado.

 

Sabemos que tudo começou por causa da falta de paciência de Nhanderu (nosso pai) com ela, pelo cansaço durante a caminhada atrás de Nhanderu e da ida dela para o caminho errado, porque já não enxergava mais seu rumo.

 

Segundo minha avó, eram três caminhos para ela escolher: o primeiro era ijyke koty, axua, do lado esquerdo; o segundo era do lado direito, axue’ ӯ a e henonde katy; à frente, estava o que os Guarani Nhandewa chamam de nhanderowai. Ela, porém, não soube cuidar de si mesma e não ouviu seu pya’a (sentimento, coração). Por isso, quando chegou nessa encruzilhada, se perdeu, já estava perdida, por causa de py’a kangy, sentimento frágil, e por estar exausta, cansada, kane’õ. Para que nosso conhecimento seja forte e para que nossos corpos continuem saudáveis, precisamos ter voz e luta pelos nossos direitos iguais, hoje, o que propõe o exercício do diálogo, exige de nós mulheres um elemento fundamental para que seja possível caminhar igual juntos com os homens, mas não num espaço que foi feito para os homens, mas sim num espaço adequado de acordo com nosso teko, para construir nosso tekoha, para atender as demandas das mulheres.

 

Nosso saber está relacionado à terra, às plantas, na nossa história isso tem que ser respeitado, assim podemos continuar fortemente no nosso sistema Guarani. Os conhecimentos do juruá estão em todas as partes, e essa situação de confusão, muitas vezes, faz nós recuar ou negar o nosso próprio ser. Se não tivermos nosso ser fortalecido na nossa base durante a nossa construção, nosso conhecimento, fica claro e mais fácil para nosso inimigo nos dominar.

 

Quem são os nossos inimigos? Para que possamos continuar com nosso reko fortalecido, isso requer espaço adequado, para manter nossa identidade, o espaço de acordo com nosso sistema. Canto e dança são a nossa força para enfrentar qualquer situação de confronto, seja para ir pescar, fazer ritual para pedir a ija os peixes que iremos pescar, o dono dos peixes, pedir chuvas para plantar e sempre cuidar do plantio. Quando vai para a caça, também se faz canto para pedir as caças para ija, para dizer que estamos consumindo apenas para nos alimentarmos e por necessidade. Cantamos quando estamos tristes ou alegres ou para superar nosso inimigo. Se não tiver bichos para caçar, se não tiver rios para pescar, se não há terra para plantar, não há arandu, conhecimento. Mesmo que nós tenhamos dificuldades, se tiver lugar onde possamos produzir nosso conhecimento, porahei, mboraii ou poraei é responsável pela nossa emoção e sentimentos de resistência.

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Sandra Benites, mulher guarani Nhandeva, é a primeira curadora adjunto indígena de arte brasileira do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP). Atualmente é doutoranda em antropologia social pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É mestre em antropologia social pelo mesmo instituto. Em 2018 foi curadora da exposição Dja Guata Porã | Indígena do Rio de Janeiro junto com José Ribamar Bessa, Pablo Lafuente e Clarissa Diniz no Museu de Arte do Rio (MAR). Posteriormente, ela participou de diversos eventos culturais e educacionais sobre o papel das mulheres indígenas e da arte indígena no Brasil.

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Sandra Ara Rete Benites

Photo: Marcos Brailko